SOBRE O VALOR DA ARTE E OUTRAS REFLEXÕES

Há alguns anos fui à exposição do grande pintor Piet Mondrian. Junto a suas obras consagradas haviam também algumas do início de sua carreira, apenas em preto-e-branco, bastante rebuscadas, muito diferentes das cores intensas e ângulos retos que o consagraram posteriormente. Rejeitadas à época, hoje são objeto de culto.

 

Piet and Ocean. Piet Mondrian

Piet and Ocean. Piet Mondrian

 

Recentemente, Bob Dylan, venerado como gênio, vem lançando, vamos chamar assim, os “rascunhos” (o nome correto é ‘outtakes’) de seus grandes sucessos: versões diferentes de suas conhecidas canções, gravações não-aproveitadas que expõe, de forma clara, o processo que levou à criação de seus grandes clássicos.

 

Box contendo os outtakes do clássico álbum “Blood On The Tracks”, de Bob Dylan

 

Quando criança, eu gostava de desenhar. Eu tinha plena consciência de que não eram exatamente “obras-primas”. De fato, pouquíssimos se interessavam em ver meus desenhos. Hoje, ao pegar novamente aqueles desenhos (sim, eu os preservei), percebi que eles são mais do que meros rabiscos; são, isso sim, minha expressão. Quer dizer, aqueles desenhos prenunciaram o fotógrafo que eu me tornei.

 

Um de meus desenhos

 

Há algo comum nos três casos: sem seus rascunhos, Mondrian jamais teria desenvolvido o estilo que o consagrou; sem seus outtakes, Dylan não teria chegado a seus grandes sucessos; e sem meus desenhos, eu não seria o fotógrafo que sou hoje.

Nós temos uma tendência a cultuar o que é sucesso e a negar o que é obscuro. Contudo, aquilo que eventualmente tenha dado errado, ou que tenha ficado ruim, tem tanto valor quanto o que brilha. Veja bem, não estou falando de PREÇO; estou tratando de VALOR. O artista, não raro, expõe aquilo que ele supõe que seu público gostará, e esconde o que ele acha que não é bom. Mas a beleza de criar é que trata-se de um processo, e o caminho percorrido é tão relevante quando o resultado alcançado.

Há coisas que merecem ser feitas não pelo potencial de sucesso, mas sim pela satisfação pessoal. Não importa se alguém vai gostar ou não; a arte é um meio de expressão, é um “olhar para dentro” – e lá não há plateia, exceto nossa própria alma. Criar é, antes de tudo, uma libertação, e por isso mesmo, tem caráter solitário.

Deixo, por fim, uma frase memorável do grande cantor Neil Young: “eu não dou a mínima se meu público é composto por 1 pessoa, 10 ou 100 milhões delas. Não faz nenhuma diferença para mim. Estou convencido de que o que vende e o que faço são duas coisas completamente diferentes. Se elas se encontram, é coincidência. ”