O legado da Blue Note

Sou muito aberto a influências. Tudo aquilo que me chama a atenção pode ser incorporado ao meu trabalho, incluindo a música e suas artes gráficas. Em 2005 a antiga revista Bizz lançou uma edição especial com as 100 melhores capas de disco de todos os tempos. Naquela época, como eu já era um apaixonado por música e fotografia, comprei a revista e dentre as diversas capas ali mostradas uma me chamou mais a atenção: era a capa do álbum Blue Train, do John Coltrane, artista do qual eu nunca tinha ouvido falar. Era muito bonita, com um close azul do rosto do artista e o texto incrivelmente bem-disposto. Aquilo me impressionou tanto que fui atrás para saber mais sobre quem havia feito aquela capa. Era Reid Miles, designer da lendária gravadora de jazz Blue Note.

 

A gravadora Blue Note foi fundada em 1939 pelo alemão Alfred Lion, e logo se tornou sinônimo de jazz de qualidade. Em 1956 o então ilustrador da revista norte-americana Esquire, Reid Miles, assumiu o departamento de arte da gravadora. Começava ali um novo capítulo na história das artes gráficas. Valendo-se de fotos altamente espontâneas quase sempre clicadas pelo também alemão Francis Wolf (então sócio da gravadora), Miles dispunha os textos com um controle absoluto de tipologia e formas geométricas formando capas incrivelmente belas e elegantes, tal como a música que embalava.

Ao longo de pouco mais de 10 anos Reid Miles produziu mais de 500 capas para a Blue Note, cujo estilo característico têm desde então influenciado gerações de artistas gráficos e fotógrafos (entre eles, eu). Todo grande apaixonado por música, cultura pop ou fotografia conhece ou, ao menos, já esbarrou com alguma arte que foi determinada pela “marca gráfica da Blue Note”, já que, quando um músico ou fotógrafo quer parecer cool ou quer transmitir uma aura de elegância, eles busca referências nas capas da Blue Note.

Se financeiramente Reid Miles não obteve grande retorno por seu lendário trabalho, por outro lado seu status de lenda e sua moral permanecerão para sempre no mais alto posto, já que o cool nunca há de morrer.