MARTIN SCORSESE – OU QUANDO SE AMA O QUE FAZ

Sou um apaixonado pelo diretor de cinema Martin Scorsese. Desde a primeira vez que assisti um filme seu (O Aviador [2004]) fiquei encantado com seu modo incrível de contar histórias. Em seus filmes, muito mais do que os diálogos, o que realmente narra as histórias é a imagem. Seus enquadramentos, cores e cortes são tão imprescindíveis para a compreensão do que se passa na tela quanto a história em si. Esse uso inteligente da imagem é uma das coisas pelas quais me identifico com ele, já que faço o mesmo com minhas fotografias. No entanto, há algo muito maior no Scorsese que me faz admirá-lo, mais até do que o fascínio que seus filmes me despertam.

 

Scorsese é, como ele mesmo se autodefine, um ESTUDIOSO DO CINEMA. Ele não se limita a apenas dirigir seus filmes. Dito de outra forma: a motivação maior por trás de sua obra não é o retorno financeiro que seus filmes trarão, mas sim sua paixão incondicional por contar histórias através de imagens em movimento, o que pode explicar o tom intimista de seus filmes. O que sinto ao assistir suas obras é que ele quer, de fato, nos contar histórias. Para ele, o cinema é apenas uma ferramenta com a qual ele transfere seus sentimentos para a tela, exatamente o que a fotografia é para mim: um meio pelo qual interpreto o mundo, o penetro e interajo com ele.

Embora Scorsese tenha produzido vários filmes grandiosos, muitos dos quais são tratados como clássicos universais, o que mais me encanta na sua extensa obra são seus documentários, já que neles o diretor expõe aquilo que lhe importa: a família, o cinema italiano, o cinema norte-americano e a música (sua segunda grande paixão), entre outros temas. Scorsese acredita na importância de se expor, de mostrar-se como um ser humano comum, de contar aos outros – à sua própria maneira – coisas que lhe desperta paixões. Eu próprio acredito nessa necessidade: para mim, a verdadeira beleza da fotografia não está nas coisas grandiosas, mas sim no dia-a-dia, no trivial, no imprevisível, no quão surpreendente e complexa é a vida, o mundo e tudo o que há neles. Apenas esses dois pontos seriam mais-do-que suficientes para me fazer amá-lo. No entanto, há outra coisa no Scorsese que me faz admirá-lo.

 

Apesar de ser uma lenda do cinema e seus filmes serem verdadeiras aulas acerca da sétima arte, Scorsese é humilde o suficiente para admitir a necessidade de estudar continuamente. Como já dito no segundo parágrafo, frequentemente ele se define como um estudioso do cinema, alguém que tem obsessão pelo que faz, que estuda a fundo não apenas os aspectos técnicos de seu meio, mas também – e principalmente –  a história do cinema, seus maiores diretores e suas grandes obras, sem nenhum preconceito quanto a datas, gêneros ou nacionalidade. Em várias e várias entrevistas Scorsese nos ensina que é necessário ver e rever diversas vezes obras do nosso universo (no meu caso, fotografia). De fato, assim como acontece com os filmes, na fotografia aprende-se cada vez mais e mais conforme se estuda as grandes obras. Do mesmo modo que o verdadeiro cineasta não cessa nunca de buscar novas referências e de debater sobre seu meio, também assim o é o verdadeiro fotógrafo, já que apenas apertar botões não basta para se fazerem boas fotos.

Do mesmo modo que Scorsese – ao amar e estudar o cinema – é a síntese perfeita do verdadeiro cineasta, para alguém se dizer FOTÓGRAFO (assim mesmo, em maiúsculas), não basta apenas possuir um boa câmera e fazer um curso; FOTÓGRAFO é aquele que ama incondicionalmente o que faz, estuda e dedica sua vida à arte de transformar sentimentos em imagens, interpretando a realidade, envolvendo-se com ela e, mais até, inserindo-se nela. Como bem disse Scorsese, quem produz a imagem não é a câmera, mas sim a mente de quem a opera.

 

Cenas de alguns de seus grandes filmes:

 

Taxi Driver (1976)

 

Touro Indomável (1980)

 

Os Bons Companheiros (1990)