A GUERRA, O CASAMENTO: EXTREMOS NA VIDA

Durante muito tempo considerei o fotojornalismo como a faceta mais nobre da fotografia, e a fotografia de eventos um gênero de menor relevância. Contudo, tenho repensado essa visão.

Curioso: consigo encontrar semelhanças entre a fotografia de guerra e a fotografia de casamentos. Como bem salientou meu amigo Alisson, ambas as situações são extremas: a guerra, o limite do sofrimento; o casamento, o limite da felicidade. Mais do que isso: ambos – a guerra e o casamento – dizem respeito a pessoas, e, portanto, seus valores são incalculáveis. Cada vez mais e mais tenho me convencido de que o registro de um evento é tão relevante quanto, por exemplo, a fotografia histórica de um conflito armado. Kundera explica isso.

Josef Koudelka | Invasão 68: Pacto de Varsóvia invade Praga, Tchecoslováquia. Agosto, 1968. © Josef Koudelka | Magnum Photos

Tenho relido “A Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera, que, entre outros temas, discute o peso de nossos atos, que são o que determinam os rumos da vida. Ora, se cada ação leva a uma consequência imprevisível (já que não se pode nunca avançar o futuro), então todo acontecimento – por menor que seja – tem um peso incalculável, de forma que torna-se impossível determinar o que é mais pesado (por exemplo: uma promessa de amor ou uma declaração de guerra). Por outro lado, não sendo possível viver a mesma vida duas vezes, jamais saberemos a consequência de outra possível escolha, sendo impossível determinar de antemão o peso de cada, de forma que, no presente, todo ato é destituído de peso e, portanto, tanto o casamento quanto a guerra terão sua importância dados no futuro. Mas se todos os gêneros da fotografia têm o mesmo peso (já que todo instante fotografado têm igual relevância) o que determina, para cada fotógrafo, a relevância de segmento? Como decidir o qual caminho a seguir? Simples: o prazer de fotografar.

Luiz Paulo de Morais. Casamento de Margarida e André. ©Luiz Paulo de Morais. Guaxupé/MG

Novamente evocando o Alisson, o que deve mover o fotógrafo é a autossatisfação, é a alegria de olhar o próprio trabalho, de saber que fez o que queria. Sim, porque há pessoas que se auto enganam ao crerem que o aplauso de terceiros é que legitima seu trabalho, o que só pode conduzir à infelicidade, já que toda ovação, por maior e mais estridente que seja, cedo ou tarde silencia, enquanto que a realização pessoal

Concluo, portanto: não há gênero mais relevante ou menos importante. Há somente aquilo que dá prazer ao fotógrafo. Isso tem que bastar.